“Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, ele se sentará em seu trono glorioso.” (Mateus 25.31, NVT)
A cena é grandiosa. Um Rei em seu trono, uma multidão reunida diante dele e uma decisão que determinará o destino de cada pessoa. Não há espaço para negociações, discursos ou recursos. Todas as nações estão representadas e ninguém ficará de fora. Chegou o momento da separação.
De um lado, as ovelhas. Do outro, os bodes. As primeiras serão colocadas à direita; os outros, à esquerda. A divisão é clara, os destinos são diferentes e a decisão, definitiva.
Em tempos de polarização, é quase impossível ler essas palavras sem pensar nas disputas que dividem nossa sociedade. Direita e esquerda se tornaram muito mais do que posições políticas. São identidades, convicções e, para alguns, quase profissões de fé. Cada lado acredita possuir as melhores respostas, defender os valores mais importantes e representar o caminho mais adequado para o futuro. Não faltam argumentos, discursos inflamados e certezas inabaláveis.
E, convenhamos, para quem gosta de encontrar justificativas bíblicas para suas posições, essa passagem parece um presente. Afinal, as ovelhas estão à direita e os bodes à esquerda. Seria a confirmação definitiva de quem está do lado certo?
Antes que alguém comemore, há um detalhe fundamental nessa história.
Não são as ovelhas que escolhem ficar à direita, nem os bodes que decidem permanecer à esquerda. É o Rei quem determina o lugar de cada um.
A passagem de Mateus 25.31-46 não é uma declaração sobre ideologias políticas, mas uma descrição do julgamento final. Jesus não está estabelecendo preferências partidárias. Está revelando que chegará o dia em que todas as pessoas estarão diante dele e serão julgadas segundo sua perfeita justiça.
Mas o que chama a atenção não é apenas a separação. É a explicação que Jesus apresenta para ela.
Aos que estão à direita, o Rei declara que teve fome e recebeu alimento, teve sede e recebeu água, era estrangeiro e foi acolhido, estava sem roupas e foi vestido, enfermo e recebeu cuidados, preso e foi visitado. Surpresos, os justos perguntam quando haviam feito tudo aquilo por ele. A resposta revela que, ao atenderem às necessidades dos menores de seus irmãos, estavam servindo ao próprio Cristo.
Aos que estão à esquerda, a explicação é semelhante, mas com um resultado oposto. Diante das mesmas necessidades, deixaram de agir. Não ofereceram alimento, não acolheram, não cuidaram. Também demonstram surpresa, como se não compreendessem quando haviam negligenciado o próprio Jesus.
É nesse ponto que a passagem deixa de ser uma imagem distante do futuro e começa a confrontar nossa maneira de viver no presente.
Somos capazes de defender nossas convicções com uma intensidade impressionante. Discutimos política, religião, moralidade e costumes. Queremos estar certos, convencer os outros e demonstrar que nossas escolhas são coerentes com aquilo em que acreditamos. Mas nem sempre dedicamos a mesma energia para praticar o amor, a misericórdia e a generosidade que afirmamos defender.
Podemos conhecer a Bíblia e ignorar quem precisa de ajuda. Podemos defender a justiça e agir injustamente. Podemos proclamar valores cristãos e tratar com desprezo aqueles que pensam diferente de nós. Podemos, inclusive, estar certos em muitas de nossas opiniões e profundamente equivocados em nossas atitudes.
O problema não é ter convicções. É permitir que elas ocupem o lugar que pertence a Cristo.
“Podemos passar a vida inteira tentando provar que estamos do lado certo e descobrir que nos esquecemos de fazer o que era certo.”
A mensagem de Jesus não transforma boas obras em moeda de troca pela salvação. Somos alcançados pela graça de Deus, não por nossos méritos. Entretanto, a fé genuína produz frutos. Uma vida transformada por Cristo não pode permanecer indiferente ao sofrimento humano. A misericórdia não é o preço da salvação, mas uma de suas evidências.
Isso deveria nos fazer refletir sobre a facilidade com que confundimos identidade religiosa com fidelidade a Deus. Frequentar uma igreja, conhecer as Escrituras e defender princípios cristãos são aspectos importantes da vida de fé, mas não substituem uma existência marcada pela obediência a Jesus. Ele próprio advertiu, em Mateus 7.21, que nem todos os que o chamam de Senhor entrarão no Reino dos céus.
Há ainda algo desconcertante no relato das ovelhas e dos bodes: ambos os grupos se surpreendem com as palavras do Rei. Isso revela como nossa percepção sobre nós mesmos pode ser limitada. Julgamos conhecer nossas motivações, justificamos nossas escolhas e frequentemente acreditamos ser melhores do que realmente somos. Entretanto, Jesus conhece aquilo que está além das aparências.
Talvez seja por isso que gastamos tanto tempo tentando identificar quem são as ovelhas e quem são os bodes. Classificar os outros parece mais confortável do que examinar a própria vida. Apontar os erros de quem pensa diferente exige menos coragem do que reconhecer nossas incoerências.
Mas Jesus não nos entregou a responsabilidade de fazer essa separação. A autoridade de julgar pertence exclusivamente a ele.
E aqui está uma diferença que não podemos ignorar: nas eleições, escolhemos nossos representantes, defendemos candidatos e participamos das decisões que influenciam os rumos da sociedade. Podemos comemorar vitórias, lamentar derrotas e mudar de posição ao longo da vida. Tudo isso faz parte da experiência humana.
No julgamento descrito por Jesus, porém, a situação será completamente diferente.
Naquele dia, não seremos nós que escolheremos quem ocupará o trono. Estaremos diante daquele que já é Rei.
E não será suficiente afirmar que pertencemos ao grupo certo, que defendemos as melhores ideias ou que sempre estivemos do lado da verdade. Nossa esperança deverá estar em Cristo, e a realidade de nossa fé será conhecida por aquele que vê muito além das palavras.
Por isso, enquanto ainda há tempo, talvez a pergunta mais importante não seja quem está à direita ou à esquerda, mas o que nossa maneira de viver revela sobre nosso relacionamento com Jesus.
Porque chegará o dia em que nossas certezas serão confrontadas pela verdade daquele que conhece todas as coisas. As discussões terminarão, os argumentos perderão sua importância e nenhuma convicção pessoal terá poder para alterar seu julgamento.
As ovelhas estarão à direita. Os bodes, à esquerda.
E a decisão será dele.
De que lado você estará?


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