Hoje, atravessando uma rua em São Paulo, o sinal fechou e uma moto avançou um pouco sobre a faixa de pedestres.
Nada demais. Uma dessas cenas absolutamente comuns da cidade.
Mas, na mesma hora, me veio um pensamento sobre o motociclista.
Pensei que, se a situação fosse inversa, talvez ele ficasse irritado. Talvez buzinasse. Talvez reclamasse. Talvez descontasse em mim uma raiva que nem começou ali.
Eu pensei.
Mas não falei nada.
Continuei atravessando.
E alguns segundos depois me ocorreu uma coisa: existe um espaço entre aquilo que passa pela nossa cabeça e aquilo que colocamos para fora.
Talvez esse espaço tenha um nome.
Coração.
Nem todo pensamento merece virar palavra.
Nem toda irritação merece virar resposta.
Nem todo julgamento precisa ganhar voz.
O problema é que vivemos num tempo em que parece existir uma linha direta entre pensamento e expressão.
Pensou, publica.
Discordou, comenta.
Se irritou, responde.
Foi contrariado, ataca.
Como se autenticidade significasse dizer imediatamente tudo o que sentimos.
Mas não significa.
Às vezes, maturidade é justamente não dizer.
Não porque o pensamento foi bonito. Muitas vezes ele não foi.
Não porque você não ficou irritado. Ficou.
Mas porque existe algo dentro de você capaz de decidir se aquilo vai continuar sendo apenas um pensamento ou se vai se transformar em palavra, atitude e, eventualmente, ferida.
Jesus disse que “a boca fala do que está cheio o coração” (Lucas 6.45).
Normalmente usamos esse texto para olhar para o que saiu da boca.
Talvez também devêssemos olhar para aquilo que quase saiu.
Porque o coração não aparece apenas nas palavras que pronunciamos.
Ele também aparece nas palavras que decidimos não pronunciar.
Existe uma diferença entre sentir raiva e entregar o volante para ela.
Entre pensar mal de alguém e transformar esse pensamento numa sentença.
Entre perceber uma falha e usar essa falha como desculpa para desumanizar uma pessoa inteira.
O pensamento pode ser rápido.
O coração precisa ser mais lento.
Talvez seja esse um dos grandes desafios da nossa época.
Criar espaço.
Espaço entre a provocação e a resposta.
Entre a opinião e a postagem.
Entre a irritação e a palavra.
Entre aquilo que eu poderia dizer e aquilo que realmente precisa ser dito.
Esse espaço não é censura.
É domínio próprio.
E domínio próprio, curiosamente, quase nunca chama atenção. Ninguém fotografa. Ninguém aplaude. Ninguém sabe da resposta que você não deu, da discussão que não comprou, da palavra que engoliu, do comentário que apagou antes de publicar.
Mas Deus sabe.
E talvez parte da transformação cristã aconteça exatamente nesses lugares invisíveis.
Hoje, naquela faixa de pedestres, eu não tive nenhum grande momento espiritual.
Só fiquei quieto.
Mas talvez, às vezes, seja assim que o coração começa a falar melhor.
“Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar e tardio para se irar. [Tiago 1.19]”