Hoje eu disse não. Só isso.

Não veio acompanhado de uma explicação, de uma história, de uma desculpa ou de uma tentativa de tornar minha resposta mais aceitável. Não procurei uma justificativa que fizesse a outra pessoa pensar: “Ah, então tudo bem”.

Eu simplesmente disse não.

E talvez o que tenha me feito pensar sobre isso depois tenha sido justamente a estranheza de uma palavra tão pequena parecer precisar de tanta coisa ao redor para ser considerada suficiente.

Porque, pensando bem, quase nunca fazemos isso com o sim.

Quando alguém nos convida para alguma coisa e respondemos “sim”, dificilmente ouvimos:

“Mas por quê?”

“Tem certeza?”

“Qual é o motivo?”

“Você poderia explicar melhor por que decidiu aceitar?”

O sim costuma ser recebido como uma resposta completa.

Sim.

Pronto.

Mas experimente dizer não.

Quase imediatamente sentimos necessidade de acrescentar alguma coisa.

“Não, porque tenho outro compromisso.”

“Não, porque estou cansado.”

“Não, porque dessa vez realmente não vai dar.”

“Não, infelizmente…”

E talvez esse “infelizmente” diga muita coisa.

Por que precisamos pedir desculpas por algumas das nossas decisões?

Em algum momento aprendemos que o sim pode andar sozinho, mas o não precisa de acompanhante.

O sim não precisa provar nada. O não parece precisar apresentar documentos.

Talvez seja porque gostamos de agradar. Talvez porque não queremos parecer grosseiros. Talvez porque tenhamos medo de decepcionar alguém. Talvez simplesmente porque fomos educados a acreditar que recusar alguma coisa exige uma justificativa.

Mas existe algo profundamente saudável em descobrir que uma palavra pode ser inteira.

Não.

Sem agressividade.

Sem arrogância.

Sem desprezo.

Sem raiva.

Apenas não.

Isso não significa que nunca devamos explicar uma decisão. Evidentemente existem relacionamentos, compromissos e responsabilidades em que uma explicação faz parte do respeito que devemos ao outro. Um casamento não funciona com respostas secas. Uma equipe não funciona sem comunicação. Pais e filhos precisam conversar. Amigos precisam se ouvir.

O problema não é explicar.

O problema começa quando acreditamos que toda negativa precisa ser defendida.

Porque, quando apresentamos uma justificativa, muitas vezes transformamos uma decisão em uma negociação.

“Não posso porque estou ocupado.”

“Mas é rapidinho.”

“Não consigo porque já tenho outro compromisso.”

“Se o sim pode ser completo sem explicação, o não também pode.”

“Mas você pode remarcar.”

“Não quero participar.”

“Mas por quê?”

E, quando percebemos, aquilo que já havíamos decidido tornou-se uma espécie de audiência. Precisamos convencer o outro de que nosso motivo é suficientemente bom para que ele aceite a nossa resposta.

Talvez por isso as palavras de Jesus sejam tão interessantes:

“Basta dizer simplesmente ‘sim’ ou ‘não’. Qualquer coisa além disso vem do maligno.” (Mateus 5.37, NVT)

O contexto dessa fala é importante. Jesus estava ensinando sobre juramentos. Naquele ambiente, as pessoas criavam fórmulas e garantias para dar peso àquilo que diziam. Juravam pelo céu, pela terra, por Jerusalém, tentando tornar suas palavras mais confiáveis.

Jesus desmonta essa lógica.

Sua palavra deveria bastar.

Sim deveria significar sim.

Não deveria significar não.

Há algo muito maior aí do que simplesmente aprender a recusar convites. Existe uma questão de integridade.

Uma pessoa íntegra não precisa construir grandes estruturas ao redor da própria palavra para fazê-la valer.

Ela diz sim quando é sim.

Diz não quando é não.

Talvez nossa dificuldade esteja justamente nisso. Em um mundo no qual todos tentam convencer todos o tempo inteiro, aprendemos que toda decisão precisa vir acompanhada de argumentos.

Mas nem sempre.

Algumas decisões são apenas decisões.

E existe liberdade nisso.

Liberdade para perceber que dizer não não significa rejeitar alguém.

Não significa ser insensível.

Não significa deixar de amar.

Não significa necessariamente estar bravo, magoado ou decepcionado.

Às vezes significa somente:

não.

Talvez precisemos reaprender essa pequena palavra.

Não para usá-la mais.

Mas para usá-la melhor.

Sem transformá-la em arma. Sem fazer dela uma demonstração de poder. Sem utilizá-la para ferir.

Mas também sem cobri-la com tantas desculpas que ela deixe de significar aquilo que queríamos dizer.

Curiosamente, ninguém parece estranhar um sim sem explicações.

Talvez esteja na hora de reconhecermos que o não também pode ser assim.

Inteiro.

Honesto.

Respeitoso.

E completo.

Não.